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Publicada em 21/08/2006 às 14h31m
'Rolling Stone' brasileira: pirata e descobridora de talentos
Rodrigo Pinto - O Globo Online

http://oglobo.globo.com/cultura/mat/2006/08/21/285351313.asp

RIO - A "Rolling Stone" brasileira dos anos 70 guardava muitas semelhanças com a original americana. Além de ser uma espécie de pequeno jornal, aqui como lá, grandes nomes do jornalismo estavam nas páginas da publicação. Lester Bangs, creditado como o inventor do termo "punk", e Hunter Thompson, o polêmico criador do "gonzo journalism" (matérias subjetivas que misturam ficção e realidade, contadas em primeira pessoa), assinavam textos na revista internacional.

No Brasil, Ana Maria Bahiana, hoje uma referência quando o assunto é cinema, e Ezequiel Neves, um dos primeiros jornalistas do país a se dedicar só ao rock, estavam na edição pirata brasileira.

- Na "Rolling Stone" eu tinha liberdade total. Escrevia o que queria. Mostrando como o rock era libertário lá fora, a gente deixava claro que a situação aqui no país não estava boa - lembra Ezequiel Neves, que, depois, já nos 80, ficou conhecido como descobridor e parceiro de Cazuza e Barão Vermelho.

Em 1972, o Brasil vivia o auge da ditadura militar. O governo Médici recrudesceu a ação militar contra a oposição ao governo.

- O problema é que a revista faliu no primeiro número - diverte-se o jornalista, também conhecido como Zeca Jagger, por sua paixão incontrolável pelos "Rolling Stones". - O Maciel (Luiz Carlos Maciel, editor da revista na época) deu um jeito de chegarmos ao fim do ano, porque tinha um ou outro patrocínio de gravadora. Mas era terrível, ganhávamos muito mal. Tinha dia que eu passava com um cachorro quente. Foi na revista que Zeca acabou descobrindo um outro talento do jornalismo. Chegou à redação, que ficava num velho casarão em Botafogo, Zona Sul do Rio, uma carta. O editor Luiz Carlos Maciel a entregou a Zeca, dizendo:

- Olha aí, estão te xingando por causa de uma crítica.

- Deixa eu ver - disse Zeca, tomando a carta nas mãos. - É ótima, publica.

A carta publicada foi o primeiro texto do hoje crítico de rock do GLOBO ONLINE Jamari França a chegar ao grande público.

- A "Rolling Stone" representou uma luz na escuridão para a rapaziada ligada em rock. Era quase impossível conseguir um exemplar do jornal (formato original da publicação), tido como o que trazia tudo sobre rock - lembra Jamari. - Quando chegou aqui (a versão pirata), passei a comprar e contar os dias para o numero seguinte. E logo comecei a escrever cartas elogiando ou criticando as opiniões dos jornalistas. Eles publicavam numa generosa seção de cartas. Até que finalmente abriram para críticas do leitor e publiquei duas, do disco "School's out", de Alice Cooper, e "Trilogy", de Emerson Lake and Palmer.

Com os primeiros textos, Jamari passou também a ganhar discos, que tinham que ser retirados na redação em Botafogo, para novas críticas.

- Anos depois, a Ana (Maria Bahiana) me disse que eles ficaram curiosos em saber quem eu era depois da primeira carta e ficavam me olhando da janela do sobrado. Por timidez, eu nem pedia para ir na redação. Foi meu primeiro contato com um tipo de jornalismo rock, que passou a ser meu objetivo de vida.

Fotógrafos hoje conceituados, como Annie Leibovitz e Mark Seliger, também aprenderam o ofício ao produzirem as polêmicas capas das mais de mil edições da revista americana. As capas, aliás, são marca registrada da revista, que desnudou - literalmente - John Lennon, Mick Jagger, Bob Dylan, Demi Moore, Brooke Shields, Jim Carey, John Travolta e bandas inteiras como Red Hot Chili Peppers e Blind Melon.

A "Rolling Stone" também serviu, mais recentemente, de inspiração para o cinema: "Quase famosos", de Cameron Crowe, jornalista revelado pela revista. o filme é uma paródia da primeira grande reportagem do diretor, que acompanhou uma turnê do Led Zeppelin nos anos 70.


'Éramos uma família; espalhados pelas sombras e vincos do Brasil'
*Ana Maria Bahiana

http://www.senhorf.com.br:80/revista/revista.jsp?codTexto=4485

Ficava no segundo andar de um sobrado cor-de-rosa na esquina de Visconde de Caravelas com Capitão Salomão. Embaixo havia um botequim daqueles clássicos, com um mural épico que retratava a viagem de Vasco de Gama, mesinhas com tampo de mármore, empadinhas suspeitas, uma bela carne assada e a especialidade da casa: ovos cozidos cor de rosa, a mesma cor das paredes do sobrado.

Das janelas da redação via-se o Corcovado e o sol poente sobre o casario de Botafogo, e tudo parava no final da tarde para um sorvete (meio derretido - a padaria ficava no extremo oposto da esquina) e outras guloseimas menos legais, no topo da escadaria que dava para um pequeno quintal e o galpão do depósito, onde guardavam-se o encalhe, a bicicleta do repórter-volante Dropê, as mochilas de viajantes eventuais, e, algumas vezes, os próprios viajantes eventuais. O chão era de tábuas corridas, e rangia. O banheiro tinha um pequeno nicho a São Jorge, Iemanjá, Buda e Shiva, com flores de plástico, luz vermelha e tudo.

Num extremo do sobrado ficava o santo dos santos: o escritório dos donos, um inglês e um americano muito festeiros. Cheirava a incenso e patchuli e só os chefes, Luis Carlos Maciel, editor, e Lapi, diretor gráfico, tinham acesso a ele. Fui lá uma vez: eles assinaram minha carteira de trabalho estalando de nova, a primeira anotação da minha vida. Consta que os Mutantes, amigos deles, apareciam por lá também e rolavam altas festas. Podia ser lenda, e lendas floresciam facilmente naqueles tempos.

No outro extremo ficavam as várias salinhas interligadas habitadas por nós, a redação. A primeira sala era de Lapi: uma prancheta, arquivos, uma mesa de luz, desenhos pelas paredes. Lapi parecia um Jimi Hendrix caboclo, e era extremamente talentoso e artisticamente temperamental. Parte do meu trabalho era manter Lapi feliz e sossegado, o que nem sempre era fácil considerando a noção vaga de ‘tempo’, ‘prazo’ e ‘pauta’ que reinava na outra sala, um cômodo comprido pontuado de janelas enormes, eternamente fechadas.

Este era o império de Ezequiel Neves, que às vezes respondia por Zeca Jagger e às vezes por Zeca Zimmerman e era, na verdade, o coração, a força motriz e o verdadeiro Shiva dançante de todo o sobrado. Zeca tinha uma juba encaracolada, um perpétuo bronzeado e uma lampadinha no pescoço. Sua mesa era a primeira da sala, logo ao lado da porta, para melhor interceptar os poucos press-releases - vivíamos num tempo em que a informação ainda era de boca, colhida no pé e discos - e elepês de vinil duvidoso em capas malcheirosas e mal impressas, que chegavam e eram imediatamente submetidos à sua implacável triagem.

Sua gargalhada era absolutamente infecciosa e obrigava o sobrado inteiro a reconsiderar suas prioridades: em geral, Zeca estava rindo de algum deus do rock’n’roll, temporária e inexoravelmente exposto ao ridículo. Várias vezes ao dia eu era chamada aos berros de “garotiiiiiiinhaaaaa!” ou “Aniiiiiiiinhaaaaa!” (Zeca e meus pais são as únicas pessoas do mundo que jamais me chamaram de “Aninha”. Mas Zeca, todo mundo sabe, também é meu pai!). Em geral o que me aguardava era uma Aula Prática de Jornalismo Rock.

“É pão ou é pedra?”, ele me perguntou uma vez, para meu total espanto. “É pão ou é pedra?” ele repetiu, apontando para a capa de um elepê recém chegado. Olhei: era um álbum da banda Foghat, cuja capa trazia, críptica e pretenciosamente, a foto de um pãozinho e um pedregulho. “É pedra, garotinha!”, Zeca concluiu, dando partida, em sua insubmergível máquina de escrever, a mais uma crítica devastadora.

A crueldade que Zeca reservava aos grandes - desde que eles não fossem nem os Rolling Stones nem Bob Dylan - era comparável apenas à ternura que ele guardava para os pequenos. Nenhuma banda local era obscura demais, nenhum guitarrista principiante demais para não merecer sua mais devotada atenção, e pelo menos uma notinha generosa e entusiasmada na coluna ‘Toque’, que abria cada edição, ou nas 'Notas Ligadas', que mudavam constantemente de página. “Paulo Bagunça e sua Tropa Maldita arrasaram semana passada na Toca do Rock!”, “O colégio Zacharias está com uma nova transa!”, “Próspero barbarizou o Tuca de São Paulo!”.

Os meninos apareciam em pessoa, às vezes com seus releases batidos à máquina nas mãos trêmulas, às vezes com seus instrumentos, às vezes apenas com a cara e a coragem. Zeca ouvia, entrevistava, lia, escrevia as matérias na cara do freguês – “genial, garotinho!, quando é o show mesmo?" - potencial.

É claro que às vezes acordava de mau humor e mordia: “o rock brasileiro vai de mal a pior!”. Mas, sempre, soprava. Seus acólitos neste doce ofício eram Okky de Souza - silencioso e com cachinhos de querubim barroco, batucando numa Olivetti azul ao fundo da sala; o repórter volante Dropê - sempre com um relato detalhado dos últimos acontecimentos nas Dunas, na Adega Perola ou nos bailões da Bolha no subúrbio; e, quando ele baixava de suas andanças pelo mundo, o eternamente on the road Joel Macedo.

Eu ficava na salinha do meio, em frente de uma parede decorada com as capas - uma das minhas tarefas era, toda semana, pregar a capa mais recente, e num ângulo de 90 graus à mesa do Maciel, que, se tinha uma cadeira, eu nunca o vi usar (Maciel editava a revista sentado em posição de lótus em cima da mesa).

Se Zeca era a pilha, Maciel era o córtex cerebral do sobrado, pairando com uma calma zen sobre o festivo caos mal controlado que flutuava sobre as tábuas rangentes. Nenhuma crise - não tem foto pra página 8!, a matéria dupla da página central sumiu! A policia vai dar batida! A edição foi recolhida pela censura! Acabou o contrato com o Jan Wenner! – era suficiente para abalar o drive de Maciel. Só uma vez eu o vi balançar seriamente - mas aí, todos nós balançamos seriamente, e não ouve cassata ou cannabis que tirasse nossa dor: quando Torquato Neto se suicidou.

Fora isso, Maciel sorria, propunha, tentava discutir com Zeca (impossível) e me ensinava o que eu pedia para aprender. Minhas tarefas como secretaria da redação (subsituindo, por coincidência, uma outra Ana Maria, a Lobo), consistiam inicialmente, em marcar as laudas de matéria para a gráfica, recolher o material de ilustração, manter Lapi feliz e responder as cartas dos leitores.

Nenhuma dessas coisas era tão simples assim. Marcar laudas implicava, na realidade, em arrancar as ditas cujas das relutantes máquinas de escrever da redação. Recolher material de ilustração era, quase sempre, free jazz. Como o contrato com a matriz expirou no meio do caminho e, em tese, não tínhamos mais direito a usar o material americano, era preciso um bocado de criatividade para reciclar nossos parcos arquivos.

Zeca, como sempre, tinha soluções. “É matéria sobre Three Dog Night, garotinha? Põe essa foto aqui – é o gato do Maciel, mas se a gente estourar a foto, capaz de parecer um cachorro, não é?” Responder cartas dos leitores era quase psicanálise. Como eu sabia muito bem - tendo sido leitora apaixonada por quatro meses, antes de passar para o outro lado - nossos leitores se julgavam, todos, donos da revista, sócio-atletas, co-conspiradores. E eram. Éramos todos uma enorme família, espalhados pelas sombras e vincos do Brasil.

Dois leitores escreviam quase toda semana: uns tais de Jamari França e José Emílio Rondeau. Eu reclamava com Maciel: "não dá para publicar outras pessoas, não? Esses caras estão monopolizando as cartas!".

Muito em breve eu estava fazendo entrevistas, cobrindo shows, escrevendo resenhas de discos - além de tudo isso acima, mais buscar café no botequim, sorvete na padaria e fazer ban-cha. Era o que eu queria, o que qualquer estudante do segundo ano de jornalismo, entediado de teoria (e, naquele tempo, censura), quer: ação, mão na massa, o avesso da costura.

Durou um ano, exatamente: o ano de 1972. O último disco que recebemos foi ‘Acabou Chorare’, dos Novos Baianos. Me lembro dos janelões da redação finalmente abertos, um poente lindo de começo de verão entrando por cima das copas das amendoeiras, o disco rodando na vitrola do Zeca, sorvete liquefeito em copos de papel e um nó na garganta. Todo mundo sentado em cima das mesas, ouvindo os Novos Baianos dizerem que tudo ia ficar lindo, e a gente já sabendo que a revista estava condenada. E Zeca dizendo: “mas garotinhos, vai ser um verão demais!”.

Durou um ano exato. Foi mais que o primeiro ano do resto da minha vida. Foi o primeiro ano completamente feliz da minha vida.

 *Ana Maria Bahiana foi secretaria de redação da Rolling Stone, depois editora e repórter das mais importantes publicações musicais do país.

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